
Economia em 2026: Brasil desacelera com juros altos, e Manaus cresce, mas depende da indústria e do rio
Inflação dá algum alívio e emprego segue forte, enquanto o Polo Industrial avança e acompanha os efeitos da vazante sobre a logística
O Brasil perde ritmo, mas segue crescendo. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou 0,5% no segundo trimestre, uma desaceleração depois da alta de 1,1% no primeiro, e ficou 2% acima do mesmo período de 2025. A agropecuária liderou o desempenho trimestral, com crescimento de 2,8%.
O mercado projeta 1,89% de crescimento em 2026 e 1,45% em 2027. Caso a estimativa se confirme, 2026 será o primeiro ano com expansão abaixo de 2% desde 2020. Os juros elevados e o endividamento das famílias são apontados como freios para a atividade. O IBC-Br, indicador mensal do Banco Central, recuou 0,2% em julho, na segunda queda consecutiva.
A inflação deu algum alívio. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto e acumulou 4,22% em 12 meses, abaixo do teto de 4,5% da meta. Habitação, especialmente a energia elétrica residencial, teve peso importante nesse resultado.
Nesse ambiente, o Banco Central reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano em 16 de setembro, no quinto corte consecutivo de um ciclo iniciado em março. O quadro ainda tem incertezas: a projeção de inflação para 2026 está em 4,90%, acima do teto da meta, e as tensões no Oriente Médio pressionam o preço do petróleo.
O emprego é o ponto forte. A taxa de desocupação foi de 5,3% no trimestre encerrado em julho, com 103,3 milhões de pessoas ocupadas, o maior contingente da série histórica.
Em Manaus, o Polo Industrial de Manaus (PIM) segue como motor da economia local. O polo faturou R$ 121,8 bilhões no primeiro semestre, quase 10% acima do mesmo período de 2025, e manteve uma média mensal de 130.903 empregos. O ritmo acelerou ao longo do ano: o primeiro trimestre havia registrado crescimento de 2,24%, e a alta acumulada até abril era de 4,40%.
Bens de informática responderam por 22,01% do faturamento, seguidos pelo setor de duas rodas, com 19,77%, e pelo eletroeletrônico, com 15,90%. No semestre, as fábricas produziram 1,15 milhão de motocicletas e 6,2 milhões de telefones celulares. As exportações somaram US$ 391 milhões, uma parcela pequena diante do faturamento total.
Como o polo fabrica principalmente bens de consumo, seu desempenho tende a ser sensível aos juros e às condições de crédito. Esse é um dos fatores a observar nos próximos meses.
O horizonte de investimento é otimista. Com as regras da reforma tributária, a Suframa projeta a instalação de mais de 200 novas fábricas nos próximos três anos, o equivalente a aproximadamente 30% das cerca de 600 indústrias hoje instaladas. A Zona Franca preservou incentivos até 2073, mas o modelo continua sujeito a pressões políticas, questionamentos judiciais e ao desafio de diversificar a economia do Amazonas.
O risco mais imediato vem do rio. O Rio Negro chegou a 21,44 metros na quinta-feira (17), uma queda de 2,65 metros desde o início do mês. A vazante afeta diretamente a logística do polo, que depende do transporte fluvial para receber insumos e escoar mercadorias.
Empresas de navegação anunciaram sobretaxas a partir de julho. A Hapag-Lloyd chegou a apresentar cenários de US$ 1.350 por contêiner ou de US$ 3.500 quando necessário o uso de píer flutuante. A Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) alertou que a cobrança encarece o abastecimento e pode produzir efeito inflacionário.
A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) manteve a cobrança suspensa em 16 de setembro. A decisão, porém, não proíbe a taxa em definitivo: as empresas precisam comunicar a cobrança com 30 dias de antecedência e comprovar os custos adicionais. Para 2026, o parâmetro considerado é a cota de 17,7 metros.
Em resumo, o Brasil cresce menos, com inflação mais calma, juros começando a cair e emprego forte. Manaus vive um bom ano industrial, mas a vazante de outubro deve definir se a logística se transformará em custo adicional para as fábricas.
O vídeo disponível abaixo, “A farra da Zona Franca de Manaus”, publicado em 30 de julho de 2026, apresenta uma visão opinativa e crítica sobre o modelo. Seu conteúdo não foi verificado pelo Amazônia Agora e deve ser contraposto aos dados oficiais da Suframa apresentados nesta reportagem.
Foto: Suframa.
Dados verificados em 19 de setembro de 2026. O nível do Rio Negro, a taxa Selic e as projeções econômicas mudam com frequência.
Fontes consultadas: IBGE, Banco Central do Brasil, Suframa, Antaq, Fieam e Agência Brasil.
Vídeo
Comentários (2)
Ana Beatriz
Excelente reportagem. Precisamos de mais jornalismo assim na região.
Carlos M.
Acompanho o portal todos os dias. Parabéns pela apuração.



