
Setembro em Manaus: o ar, a água e o rio pedem atenção ao mesmo tempo
Fumaça, calor e uma adutora rompida coincidem com a maior incógnita do ano: até onde o Rio Negro vai descer
Na quinta-feira (17), muita gente em Manaus sentiu o cheiro de queimado antes mesmo de olhar pela janela. Foi a terceira vez em menos de dez dias que a cidade amanheceu coberta de fumaça. Na Compensa, o índice de partículas finas chegou a 129,5 µg/m³, patamar classificado como péssimo. Na sexta-feira, a qualidade do ar continuou muito ruim pelo segundo dia consecutivo.
O ar pesado veio acompanhado de calor, com termômetros acima dos 37 °C, e de outro problema básico: o rompimento de uma adutora na avenida Ipase, na Compensa, na quarta-feira (16), afetou o abastecimento em oito bairros. A concessionária alertou que até 157 localidades das zonas Oeste, Norte e Centro-Sul poderiam sofrer impactos. São problemas diferentes, mas atingem a mesma rotina, na mesma semana.
Por trás desse cenário está o Rio Negro. Em 8 de setembro, o nível era de 22,95 metros, após recuo de 94 centímetros em uma semana e ainda dentro da faixa considerada normal pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). Em 15 de setembro, a medição já marcava 21,76 metros. Não há motivo para pânico imediato: no fim de agosto, o rio estava 4,17 metros acima da cota registrada em 31 de agosto de 2024, ano da maior seca da série histórica. O que preocupa é a trajetória.
A projeção mais recente do SGB indica que o Rio Negro pode chegar a cotas entre 12,31 e 16,50 metros no pico da vazante de 2026. Os cenários de referência apontam 12,90 metros em uma crise extrema, 13,96 metros em estiagem acentuada e 14,76 metros em um quadro moderado ou crítico. A amplitude mostra que ainda há incerteza relevante sobre onde a descida vai parar.
O El Niño pesa nessa conta. As previsões indicam chuvas abaixo da média até março de 2027, o que pode reduzir a capacidade de recarga dos rios e ampliar os efeitos na próxima estiagem. Ou seja, o problema pode ir além deste ano.
O que esta semana mostra é uma crise em camadas: fogo, clima e infraestrutura se somam, e a população sente tudo de uma vez. Enquanto a fumaça persistir, a orientação da Secretaria Municipal de Saúde é reduzir a exposição, evitar exercícios ao ar livre, manter-se hidratado e, quando não for possível evitar a fumaça, usar máscara adequada, como N95 ou PFF2.
A resposta sobre o tamanho da vazante ainda vai demorar. Nas secas extremas recentes, o fundo do rio veio em outubro. A mínima de 2023 foi de 12,70 metros; em 4 de outubro de 2024, o nível chegou ao recorde de 12,66 metros. Até lá, Manaus segue de olho no rio.
Para assistir: Manaus Extrema, documentário do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), retrata a seca do Rio Negro e a fumaça das queimadas que atingiram Manaus em 2023. O trailer está disponível abaixo.
Foto: Alex Pazuello / Portal AM POST.
Fontes consultadas em 19 de setembro de 2026: Serviço Geológico do Brasil, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Prefeitura de Manaus, IPAM, g1 Amazonas e Amazônia Real.
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Comentários (2)
Ana Beatriz
Excelente reportagem. Precisamos de mais jornalismo assim na região.
Carlos M.
Acompanho o portal todos os dias. Parabéns pela apuração.



